Seletividade Alimentar

A seletividade alimentar pode se manifestar de diferentes maneiras e em várias idades e consiste na rejeição completa de certos alimentos ou mesmo de uma variedade de alimentos.

Todas, ou quase todas, as crianças passam por algum tipo de seletividade alimentar entre os 2 e os 3 anos. Nesta fase do seu desenvolvimento começam a desenvolver mais autonomia e isso faz com que tenham opiniões mais vincadas sobre o que querem ou não comer. Pode até ser um alimento que comiam antes e que agora não comem ou podem até nem querer comer em algumas refeições.

A seletividade alimentar é um problema bastante comum em crianças com Perturbação do Espetro do Autismo (PEA). Por norma apresentam comportamentos restritivos, ritualísticos e seletivos que afetam os seus hábitos alimentares resultando em desinteresse e recusa alimentar.
De um modo geral as crianças diagnosticadas com PEA têm uma grande necessidade de ter uma rotina estruturada, são pouco flexíveis e por norma apresentam uma grande rigidez em todos os quadrantes da sua vida, e isto também é valido para suas preferências alimentares.

A aversão a certos alimentos pode ser tão extrema que pode provocar náuseas ou vómitos e pode resultar num contínuo desinteresse por comida, pode levar a que a criança apenas coma pequenas quantidades de comida, que tenha pouco apetite ou que coma muito devagar.
Muitas destas crianças sofrem de sensibilidade sensorial e a rejeição nestes casos pode acontecer por diversos fatores; a textura, sabor, cor, cheiro, temperatura ou até mesmo pelo aspeto, ou seja, podem exigir a preparação ou a apresentação das refeições de uma forma muito específica.

É seletividade alimentar ou é esquisito com a comida?

Seletividade alimentar não se trata de ser esquisito ou exigente com a comida. É certo que podemos afirmar que muitas pessoas são esquisitas a comer, no entanto, se estas mesmas pessoas tiverem fome vão comer qualquer alimento disponível. Quando uma pessoa tem seletividade alimentar, ela irá apenas comer certos alimentos e rejeitar todos os outros caso não haja um tratamento ou intervenção terapêutica em curso. A criança pode chegar ao ponto de adoecer. Uma criança pode não comer mais nada além dos alimentos que consegue tolerar ou aqueles que prefere comer.

A Seletividade alimentar não é o resultado de pais preguiçosos

Alguns leitores poderão inocentemente pensar se esses problemas são apenas resultado de falta de disciplina ou mesmo de pais preguiçosos. A resposta é um retumbante não.

Imagine que todas as refeições são uma luta apenas para conseguir alimentar seu filho. Imagine ter de passar horas só para que o seu filho coma uma simples refeição enquanto ele grita, bate, morde, atira com coisas ou vomita. Imagine fazer isso todos os dias, várias vezes ao dia.
Imagine a fonte de stress que será apenas para encontrar um par de alimentos que seu filho tolere comer. Ter uma refeição tranquila é algo que não existe no seu dia-a-dia.

Os pais destas crianças com necessidades especiais poderão ser tudo menos preguiçosos. Eles têm de lidar com questões mais complexas do que as simples birras que resultam da esquisitice alimentar de crianças neurotípicas. Para os pais, este comportamento é um desafio enorme e é uma fonte de stress e de angústia. A alimentação é um assunto muito delicado, não apenas pelo stress e angústia sentida tanto pelos pais como pelas crianças, mas principalmente pelo risco de deficiências nutricionais.

Por que é que eles não comem quando têm fome?

Infelizmente não conhecemos nenhum motivo específico pelo qual as crianças com PEA, que sofrem de seletividade alimentar, não comam mesmo quando têm fome. O que sabemos através de diversos estudos realizados é que estas crianças mais facilmente ficam doentes em vez de simplesmente comer os alimentos aos quais têm aversão ou não gostam.

O tratamento da seletividade alimentar deverá ser realizado com ajuda do terapeuta ocupacional que oferecerá diversos estímulos táteis através do contacto com diversas texturas, bem como fazer a apresentação de novos alimentos. Durante a estimulação são trabalhados todos os sistemas (olfato, visão, audição, paladar, vestibular e proprioceptivo). A família irá reproduzir essa interação em casa.

Algumas dicas que podem ajudar a criança durante o tratamento

Deixar a criança explorar os alimentos com as mãos, levar brinquedos à boca

Incluir a criança em todas as tarefas que envolvam a preparação das refeições. Desde ir ao supermercado, onde pode ver, tocar, e escolher diversos vegetais e frutas. Mais tarde em casa pode ajudar a arrumar os alimentos. A criança deve também ser incluída na preparação dos alimentos, deve poder pegar, cortar, medir, misturar e cozinhar. Depois pode ajudar a por a mesa.

Os horários das refeições devem ser consistentes. Devem ser evitados lanches ou snacks muito próximos das refeições. O apetite poderá ser um bom motivador.

Quando é introduzido um novo alimento, é sempre boa ideia ter no prato um outro alimento que a criança goste que seja semelhante no paladar ou textura.
Inicie a introdução desse novo alimento com uma porção muito pequena para que a criança não seja demasiado estimulada com a boca cheia de algo estranho.

A exposição a um novo alimento deverá ser gradual e repetida (10 a 15 tentativas podem ser necessárias).

Os adultos devem servir de modelo e comer os mesmos alimentos. Promova experiências sociais de alimentação, como refeições em família com todos os membros comendo a mesma comida.

Se tiver acesso a uma horta, poderá levar a criança a visitar para poder cuidar ou colher alguns legumes e frutas.

Deverá ter também em conta a textura e o tamanho do alimento, se possível, opte por introduzir o alimento em puré, ou algo ralado, depois partido em pedaços pequenos, evoluindo progressivamente na apresentação desse alimento.
Mesmo que a criança aceite o alimento na boca, não é garantido que o mastigue e engula. Por exemplo, será muito mais fácil introduzir um novo fruto em puré do que cortado aos pedaços. Uma vez que a criança aceita bem o puré, pode começar a oferecer um pedaço muito pequeno desse fruto, ofereça o equivalente a 1/4 de colher chá, depois da criança comer essa quantidade consistentemente, passe para 1/3, depois para meia colher de chá e assim sucessivamente.

Como compensação, a criança poderá ser recompensada com uma comida de que goste muito ou uma atividade preferida.

Tenha uma atitude positiva, evitando negatividade e pressão para comer.

Nunca deixar de oferecer um alimento só porque a criança deixou de o comer.

Se a criança está a rejeitar brócolos, colocamos no prato uma porção pequena junto com o resto da comida, para não ser desmotivante para a criança.

Devemos oferecer variedade, quer na cor, textura e sabor.

O mais importante neste processo é a calma, positividade e muita criatividade.

Deverá ter sido em conta que o que funciona com uma criança, poderá não resultar com outra. Deste modo, com a ajuda do terapeuta deverão ser exploradas diversas estratégias.

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